segunda-feira, 20 de março de 2023

A Violinista

Sob o sol do meio-dia,
no meio da avenida,
a violinista toca o Ave-Maria de Schubert.

(Pauso o meu dia;
encosto-me às pedras do velho teatro
e deixo-me enlevar pela música.)

À sua frente passam outras Marias,
e Mários, e afins...

Passam alheios, abstraídos,
indiferentes, alienados;
os seus olhares vidrados estão fixos,
fixos num pequeno,
e brilhante,
retângulo mágico…

(Que cesse toda a realidade
onde se levanta a virtualidade!)

Fora desse mundo nada existe;
não há nada para ver,
não há nada para ouvir…

E a violinista continua a tocar.

(Não reconheço esta nova peça,
mas é bonita!)

Eu?
Eu sento-me e escrevo um poema,
reviro os bolsos e deixo-lhe as moedas que tenho.

(São poucas, muito poucas,
sobretudo se as compararmos com o seu talento;
menos ainda se pensar no prazer que me deu…)

Depois sigo o meu caminho
e continuo a viver esse dia.