(Sentado na mesa ancestral)
O poeta lança olhares furibundos
por debaixo dos cabelos desgrenhados.
Espuma raiva, em palavras caladas,
de seu punho a tinta jorra em golfadas
pelo papel, sequioso, corre um rio
de emoções escondidas que a caneta pariu.
(Um pouco atrás, de pé)
O filósofo observa tranquilamente.
O seu olhar vagueia, indolentemente,
algo distante, como que ausente,
ora poisa nas costas do poeta demente,
ora nos fiapos da tapeçaria esfarrapada
que pende sozinha, esquecida, abandonada.
(Afundado num cadeirão)
O sábio, com ar severo,
Olha reprovador e austero,
Para o furibundo poeta demente,
para o tranquilo filósofo indolente.
Ele sabe. Ele tem a certeza!
A resposta não está naquela mesa.
(Saltitando desvairado pela sala)
O louco imita o vento:
uivando de contentamento
atira pelo ar as folhas do poeta!
Ri-se, com gosto, do sábio da treta.
Pisca um olho ao filósofo imóvel
que boceja, algo divertido, mas imutável.
Quando o louco se cala,
nada mudou na sala.
Cai no sofá, velho e desconjuntado,
arfando de cansaço e desolado.
Solta um ultimo brado,
um apelo desesperado!
É com sangue que escreves!
É a tua vida que contas!
É o teu desespero e a tua solidão
que plasmas em resmas de folhas soltas!
Mas o tempo parece estar parado
e o louco é, ostensivamente, ignorado.
O poeta escreve furiosamente.
O filósofo observa indolentemente.
O sábio reprova severamente.
Lentamente o louco levanta-se
com ar triste e pesado
dirige-se para a cozinha;
num pouco de azeite rançado
estrela o ultimo ovo.
Serve-se de um copo de vinho,
pega num naco de pão duro,
senta-se à mesa a comer.
De olhar vago e vazio espera que os dias acabem…
Lá no alto do seu sexto andar, fechado na sua torre urbana;
sem ameias nem homenagem…
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